85
ARQUITETURA ESCOLAR REPUBLICANA:
A ESCOLA NORMAL DA PRAA E A CONSTRUO DE UMA IMAGEM DE
CRIANA


CARLOS MONARCHA
 do cultivo dado  infncia, da sua direo nos primeiros anos, que advir a
formao do carter e da mentalidade da gerao que nos h de suceder.
Antonio Caetano de Campos


A Escola e o Relgio como se transformaram em smbolos do ardoroso iderio
republicano aparecendo nas praas mais novas em substituio da Igreja e do Cruzeiro.
Vilanova Artigas


A
Pedro e Jlia
85#
86
No limiar da Repblica brasileira, os republicanos paulistas solucionam uma
questo inusitada para a poca: a configurao de um programa e a eleio de um
estilo arquitetnicos destinados  construo de um edifcio escolar: a Escola Normal
da Praa, denominao afetiva dada pelos contemporneos da poca  Escola Normal
de So Paulo, cujo edifcio  inaugurado em 2 de agosto de 1894 e destinada a abrigar
o Curso Normal, a Escola-Modelo Preliminar "Antonio Caetano de Campos", a
Escola-Modelo Complementar e o Jardim da Infncia.
Preocupados com a acolhida dos "recm-chegados"  vida republicana --os
novos --, os republicanos paulistas configuram uma arquitetura escolar caudatria do
imaginrio da poca e promovem, por meio de um discurso elaborado em estilo alto e
idealizador --pleno da impresso do novo e do messianismo poltico --, a construo
de uma imagem de criana, subitamente valorizada e representada como herdeira da
Repblica recm-instalada.
Concebido como celulla mater do aparelho escolar paulista e, por extenso, da
prpria sociedade, o edifcio da Escola Normal da Praa torna-se o padro a ser
adotado na construo dos Grupos Escolares e Escolas Normais do estado de So
Paulo, na virada do sculo XIX para o XX.
Objetivando contribuir para a anlise dos aspectos constitutivos da arquitetura
escolar republicana produzida em So Paulo, a partir da dcada de 1890, tematiza-se
neste estudo o programa e estilo arquitetnicos da Escola Normal da Praa,
articuladamente  construo de uma imagem de criana.
Para a vializao deste estudo, utilizaram-se fontes documentais de diversos
tipos: plantas arquitetnicas, fotografias, cartes postais, discursos oficiais proferidos 
poca da inaugurao do estabelecimento, legislao especfica, biografias, memrias e
evocaes.


So Paulo finissecular
No limiar da Repblica, a cidade de So Paulo passa por um processo de
transfigurao urbana. O centro histrico supera os seus limites seculares, irradiando-se
para oeste e leste, para o alm-Anhangaba e o Tamanduate, e urbanizam-se
enormes extenses de terra livre .
Graas ao dinheiro do caf, das fbricas e do comrcio, So Paulo aprofunda as
transformaes iniciadas na dcada de 1870, colocando-se sob o signo do progresso
econmico, cujos ndices mais aparentes so: o adensamento populacional --entre
1890 e 1893 o nmero de habitantes da capital passa de 65.000 para 130.775; e a
concentrao de moradias --em 1887 h 7.012 prdios construdos na capital e, em
1895, o nmero se eleva para 16.205.
No processo de expanso da trama urbana e urbanizao das terras livres,
associam-se autoridades administrativas, arquitetos e especuladores imobilirios. O
Estado reorganiza o seu aparato administrativo, ampliando os servios pblicos no
mbito da higiene, sade, polcia urbana e instruo.
A ocupao social dessas novas reas d-se segundo um padro definido: as
terras altas e salubres so transformadas em boulevards aristocrticos --Higienpolis e
Campos Elseos --destinados  burguesia paulista. E as terras baixas e alagadias,
contguas aos leitos das estradas de ferro e concentraes industriais, originam
precrias aglomeraes de bairros operrios --Brs e Bom Retiro.
Nesse clima finissecular marcado pela Proclamao da Repblica, progresso e
motivao econmica acentua-se, entre a classe dirigente, o anseio de remodelao da
86#
87
fisionomia urbana da cidade de So Paulo. Os edifcios e obras pblicos e as
residncias particulares que surgem nessa poca, assim como o embelezamento do
centro urbano expressam a viso de mundo da burguesia paulista.
De fato, testemunhando a liberao de um mpeto construtor at ento
desconhecido, concretiza-se, entre as dcadas de 1870 e 1890, um rol de obras
marcantes, edificadas de acordo com estilos arquitetnicos, ento inovadores: o
neoclassicismo com diferentes nfases e o ecletismo (1). Desse rol de obras destacam-se:
Palcio do Governo, Tesouraria da Fazenda, Secretaria da Agricultura, Correio
Geral, Palcio do Congresso do Estado, Hospedaria dos Imigrantes, Quartel da Luz,
Monumento do Ipiranga, Hospital de Isolamento, Instituto Bacteriolgico, Escola
Normal de So Paulo e os palacetes de Dona Veridiana Prado, do Conselheiro Antonio
Prado e de Dona Maria Anglica Aguiar de Barros
(2).
Os arquitetos Francisco de Paula Ramos de Azevedo, Tommaso Bezzi, Luigi
Pucci, Domiziano Rossi e Matheus Haussler tornam-se os profissionais da moda:
transformam o neoclassicismo e o ecletismo em estilos obrigatrios, projetando e
construindo edifcios pblicos e residncias particulares apoteticos.
Negao das tcnicas construtivas consideradas arcaicas, denotamente a taipa-de-
pilo, a nova moda arquitetnica possibilita a autoprojeo cultural de uma classe
social na modelao da fisionomia urbana, a qual se torna conglomerada, angulosa e
envolta em ar cosmopolita.
No limiar da Repblica, So Paulo despede o passado colonial e monrquico
para transformar-se em uma cidade cosmopolita, que concentra as funes de capital
econmica, administrativa, poltica e cultural do estado de So Paulo. Entretanto, o
tecido arquitetnico, a atmosfera cosmopolita e a retrica republicana dissimulam a
presena de uma atmosfera saturada de tenses causadoras de luto e desolao:
acumulao progressiva das populaes, irrupo de epidemias, pobreza e indigncia
das massas urbanas, especulao imobiliria, escassez de imveis e alta dos aluguis; e,
no mbito mais geral da nao, o jacobinismo poltico e a guerra civil --a Revolta da
Armada, a Revoluo Federalista e a Revolta de Canudos.
A imagem contrastada e opressiva da cidade de So Paulo torna-se algo
inverossmil, deixando entrever a existncia de mundos opostos: um centro urbano
com boulevards aristocrticos e luminosos, convivendo com aglomeraes operrias
constitudas por ruas sombrias e confusas, com populaes encurraladas em cortios.
O rpido crescimento dessa cidade, o potencial insurrecional da populao, a
implantao do trabalho assalariado, assim como a necessidade de gesto da sociedade
burguesa geram urgncias sociais e determinam a racionalizao dos servios
pblicos, a fundao de institutos de ensino e pesquisa e a execuo de polticas sociais
setoriais.
Nesse momento histrico de mudanas aceleradas, consolida-se o poder de uma
classe social ativa, em ascenso para uma posio de domnio econmico e espiritual e
interessada em aprofundar a experincia republicana, empenhando-se arduamente na
separao entre esfera pblica e esfera privada. De um lado, trata-se de uma burguesia
portadora de um estado de autoconscincia e que apregoa abertamente a relao entre
poder poltico e poder econmico. De outro, trata-se de uma burguesia cismada com o
espetculo da multido, que desenvolve os seus prprios cdigos de conduta,
ameaando imp-los ao corpo poltico.
Em outras palavras, os republicanos paulistas --representantes do "governo
para o povo" --organizam um investimento poltico e cultural com vistas  ordenao
87#
88
do corpo social, segundo os valores republicanos: as instituies poltico-administrativas
so representadas como impessoais e objetivam restaurar e resgatar
uma origem e uma soberania esquecidas (3).
No mbito desse investimento social, poltico e cultural, ao Estado cabe assumir
a funo de preceptor dos novos: o povo e acriana, ambos representados como
portadores da menoridade intelectual e social.


J que a revoluo entregou ao povo a direo de si mesmo, nada  mais urgente do
que cultivar-lhe o esprito, dar-lhe a elevao moral de ele precisa, formar-lhe o
carter, para que saiba querer.
[...]
Hoje o prncipe  o povo, e urge que ele alcance o "self-government" [...] (Caetano
de Campos, 1891)


Cristaliza-se, assim, a concepo de governo poltico como "administrao das
coisas" e a noo de liberdade como satisfao das necessidades materiais, fazendo da
poltica uma arte cientfica. Passado o momento de euforia da Proclamao da
Repblica, os instituidores republicanos preparam-se para estabilizar o novo regime,
conquistar a sua hegemonia na Federao Republicana e, sobretudo, enfrentar a face
mais visvel e ameaadora da questo social: as condies alarmantes de misria e
indigncia das massas urbanas. Atravs de obras, cdigos e regulamentos, o poder
pblico empreende a normalizao do espao urbano e das populaes citadinas (4).
Dentre as inmeras idealizaes e concretizaes que visam a estabilizar e
perpetuar o regime recm-instalado, ressaltam-se aquelas relativas  instruo pblica,
que nesse momento assume caractersticas de uma quase religio cvica, que tem por
finalidade dotar a sociedade de coeso, mediante a educao dos novos --povo e
criana --recm-chegados  vida republicana.


Lus de Toledo Piza Sobrinho, nascido em So Paulo em 1888, recorda ter
sido menino criado entre entusiamos pela causa abolicionista [...] Mas tambm entre
entusiasmos de outra espcie: pelos mtodos anglo-americanos de renovao que So
Paulo se esmerou ento em importar e adotar: Cesrio Mota, o grande secretrio do
governo Bernardino [de Campos], com a inestimvel assistncia tcnica de Miss
Browne, formou uma verdadeira escola de pedagogos, conseguindo, principalmente
criar uma mentalidade nova no departamento da instruo. No setor da higiene
pblica, no foi menor a sua notvel obra administrativa. A instalao do Instituto
Bacteriolgico, do Instituto Vacinognico, Hospital de Isolamento, e o incio de obras
de saneamento e abastecimento de gua e construo de redes de esgotos, nas
principais cidades do interior, no que foi auxiliado por abalizados cientistas como
Emlio Ribas, Adolfo Lutz, Bonilha de Toledo e outros, foram as armas que se valeu
para o combate s epidemias de febre amarela, peste bubnica e varola que assolavam
periodicamente as populaes do Estado, ceifando, anualmente, dezenas de milhares
de vidas. (Freyre, 1962, p. 193)


Atuando de acordo com a atmosfera fervilhante de otimismo --a Proclamao
da Repblica assinala o Ano 1 de uma Nova Era --, os republicanos paulistas
reorganizam primeiramente a Escola Normal e o ensino primrio. E, durante o
transcorrer da dcada de 1890, procedem  organizao do ensino secundrio --
88#
89
Ginsio do Estado --, ampliando a base --Jardim da Infncia --e a cpula do ensino --
Escola Politcnica.


Eis porque, meus senhores, resolvido o problema econmico, o social e o
poltico, voltou-se a atividade do governo republicano para a questo da instruo:
uma sociedade inteira volveu-se vida para o horizonte, e pediu luz. (Motta Jnior,
1894)


Tomados de sbita ternura e sentimento de justia social, os republicanos
explicitam um vago pensamento socialista informado pelas diferentes teorias
positivistas do sculo XIX --comtismo, darwinismo, spencerianismo, entre outros.
Mediante um sacerdcio esclarecido e filantrpico, anseiam por levar as luzes ao povo-criana,
a fim de incorporar esses novos  ordem social, por meio do trabalho regular e
da instruo.


Praa da Repblica e Escola Normal: centro de comunho cvica
Originariamente o Largo 7 de Abril -"por ser o mais espaoso da cidade" -
cogitado para receber a nova catedral da cidade de So Paulo a ser construda com os
200: 000$ 000, obtidos atravs de uma loteria criada, para esse fim, pelo governo
provincial. Com a instalao do governo republicano e a separao entre o Estado e a
Igreja, o local e o produto da loteria so remanejados para uma outra finalidade:
construo de um edifcio destinado  sediar a Escola Normal de So Paulo.
Situada no lado oeste da acrpole, a ento "cidade nova", a Praa da Repblica
--antigo Largo 7 de Abril -- concebida juntamente com o edifcio da Escola Normal,
na expectativa de ambos se exaltarem mutuamente, produzindo impresso de
grandiosidade e fulgurao.
Segundo a tradio do mundo ocidental, as praas so ocupadas por instituies
representativas da autoridade espiritual, representada pelas igrejas e catedrais e, por
vezes, seminrios e conventos, e do poder temporal, representado pelo executivo,
legislativo e judicirio (5). Poder temporal e autoridade espiritual disputam entre si a
conduo dos destinos dos habitantes da cidade. A localizao da Escola Normal de
So Paulo em uma praa pblica --aparentemente predomnio do poder temporal
sobre a autoridade espiritual -- indicativo da fuso entre o secular e o religioso,
originando uma quase religio cvica, presidida por sacerdotes laicos, a qual se instala e
se expande na cultura escolar urbana paulista da virada do sculo.


Hino Infantil
Entremos neste sacrrio,
onde moureja o operrio
da luz que aclara a Razo...
Vamos rezar
--almas devotas e presas --
diante da Instruo
[...]
E assim, repletos de f,
bem como outrora No,
na barca que nos conduz
--marinheiros pertinazes --
89#
90
chegaremos, sempre audazes,
ao porto de Luz!
(P. S., 1904, p. 210)


Hino
O dever imperioso nos chama
ao altar sacrossanto da Escola
Glria ao mestre que sbio derrama
sobre ns essa luz que consola
[...]
(Vera Cruz, 1905, p. 716)


Mas,  poca da inaugurao desse edifcio escolar, a Praa da Repblica no
existe de fato, apenas o espao fsico est delimitado: um quadriltero de terra batida,
desprovido de ornamentos, carter e significado, assemelhando-se a uma mancha
enorme ou a um aposento vazio. A falta de coeso do conjunto originada pelo
desequilbrio entre forma e proporo dificulta a revelao dos efeitos grandiosos da
construo: o predomnio da largura da praa dilui a monumentalidade da Escola
Normal.
Na aurora do sculo XX, o prefeito Antonio Prado empreende, ento, o
ajardinamento da Praa da Repblica, concretizando,  moda inglesa, a paisagem que
acompanhar o edifcio da Escola Normal da Praa por dcadas a fio: gramados
sulcados por alamedas sinuosas, repuxos d'gua e vegetao com rvores originrias
de vrias partes do mundo com predomnio de pltanos, que, no outono e no inverno,
graas a suas folhas de colorao marrom, evocam paisagens setentrionais.
Paulatinamente, esse local converte-se em um novo espao de sociabilidade urbana,
onde as famlias bem postas exercitam o hbito de exibir-se em pblico e de fruio do
espao urbano.


Ali por volta de 1902 a Praa da Repblica foi orlada de um arame farpado.
Vieram carroas, removeu-se terra daqui para ali, fizeram o lago, plantaram rvores,
gramaram canteiros e numa tarde de Ano Bom, com banda de msica, foi inaugurado
o jardim, com a presena do Presidente do Estado e do Prefeito.
Ajardinada, a Praa da Repblica, ao cair da noite, depois do jantar, tornou-se
o ponto de reunio das famlias dos Campos Elseos, Vila Buarque e Higienpolis
(Americano, 1957, p. 19-20).


A localizao da Escola Normal de So Paulo na Praa da Repblica  uma
aluso  superioridade moral e intelectual e vitalidade da Repblica. O conjunto
funciona imaginariamente como um centro de comunho cvica que convoca os
homens sensveis e as almas de boa vontade a partilharem de uma sociedade composta
de cidados, que, alm de se reconhecerem como iguais, esto envolvidos na
edificao de um mesmo porvir.


[...] ns todos bradamos como Goethe: Luz! Luz! mais luz! A este brado
trazido de classe em classe avolumado com os traidores de 15 de novembro de 89,
respondeu o dr. Prudente de Moraes decretando a construo desse edifcio majestoso.
[...]
E ele acertou. Esta festa o demonstra. Este templo o afirma.
90#
91
Ponto culminante de nossa arquitetnica, revela a altura em que a Repblica
colocou desde o seu incio o problema da instruo.
A sua nobreza demonstra que ns acreditamos que no h mais nobre
profisso que aquela que se incumbe de preparar cidados para a sustentao, defesa e
engradecimento de uma ptria livre!
A sua vastido denota que o governo convida todas as aptides, todas as
fortunas, todas as idades, todos os sexos, todas as vocaes para virem sagrar-se aqui
sacerdotes da religio do saber, em que ns democratas fundamos as nossas ardentes
esperanas de prosperidade da ptria e de glria para a Repblica. (Motta Jnior,
1895, p. 10)


Praa e edifcio formam um conjunto urbanstico e arquitetnico grandioso
destinado a impressionar a imaginao de seus contemporneos. Para os republicanos
paulistas, o local representa o triunfo da Repblica e a derrota da confuso do caos e,
ao mesmo tempo, o monumento que perpetua os ideais vitoriosos de uma poca
histrica.


A construo deste majestoso edifcio , sem a mnima dvida, a obra mais
meritria do atual e do primeiro governo republicano no pela sua magnfica
importncia mas pela sua significao moral. Por isso, quanto maiores forem os
resultados futuros da instituio da Nova Escola Normal, mais brilhante e viva ser a
memria de vosso governo perpetuada por este momento. (Prestes, 1895, p. 23)


A Escola Normal da Praa no imaginrio republicano
A 2 de agosto de 1894, inaugura-se o edifcio da Escola Normal de So Paulo 
inaugurado em meio a um cerimonial de festa pblica, com a presena de autoridades
locais, professores do instituto, alunos das escolas pblicas e do povo.


Resta-me tocar por ltimo num ponto importantssimo, que atraiu a ateno
pblica e levantou um concerto de elogios da imprensa da Capital, e para cujo
brilhantsmo muito concorreram as escolas de um e outro sexo dos 1o e 2o distritos
desta Capital. Refiro-me  instalao da Escola Normal da Capital no novo edifcio da
Praa da Repblica.
Esse ato imponente, realizado com a maior solenidade, na presena de uma
extraordinria aglomerao do povo, teve a sua nota caracterstica na presena pela
primeira vez realizada, dos alunos de todas as escolas da Capital.
O aspecto da multido de crianas, em nmero superior a 2.300,
uniformizadas, levando cada escola o seu estandarte feito a capricho, a ouro e seda,
excitou a admirao pblica, arrancando de muitos olhos lgrimas de comoo. (Reis,
1895, p. 9)


Iniciada a 17 de maro de 1891, a obra  concluda a 2 de agosto de 1894,
durante, respectivamente as presidncias de Estado de Prudente de Moraes e
Bernardino de Campos, com Cesrio Motta Jnior  frente da Secretaria dos Negcios
do Interior.
Esses republicanos histricos, vindos dos dias do "Manifesto de 1870",
educados pelos valores positivos --oganizao, ordem e disciplina --, demonstram-se
reformadores enrgicos da administrao pblica e, por vezes, empregam mtodos
91#
92
autoritrios de governo e de ao, explicitando e concretizando o sentido brasileiro de
progresso produzido no clima finissecular paulista. A construo do edifcio da
Escola Normal da Praa deixa entrever as mltiplas foras que atuam sobre a poca: a
fora produtiva das massas humanas, o potencial tcnico, o dinheiro da produo do
caf, das fbricas e do comrcio.
Mas no se pode viver apenas de monumentalidade e efeitos simblicos. Graas
 utilizao de procedimentos sistemticos, essa construo rene o grandioso e o
funcional --o belo ideal e as exigncias prticas do cotidiano --, produzindo-se um
edifcio com identidade apropriada  funo pblica para a qual  concebido (6).
O engenheiro Antonio Francisco de Paula Souza, ento diretor da
Superintendncia de Obras Pblicas, concebe o projeto inicial do prdio,
posteriormente desenvolvido e detalhado pelo engenheiro improvisado em arquiteto,
Francisco de Paula Ramos de Azevedo. Soluciona-se, ento, uma problemtica
inusitada para a poca: a criao de um programa arquitetnico para um
estabelecimento pblico de ensino, com a devida incorporao das prescries da
engenharia sanitria: ambientes amplos saturados de ar, luz e sol, permitindo o
desenvolvimento sadio das crianas.
Para a concretizao desse programa arquitetnico, empregam-se amplamente
as novas tcnicas construtivas em voga --alvenaria de tijolo, argamassa de cal e
cimento, telhas de ardsia e cermica, estruturas metlicas e de madeira --assim como
materiais de acabamento inovadores --ferragens, janelas amplas, vidros lapidados e
calhas de folhas de flandres.
A execuo da obra  entregue  Superintendncia de Obras Pblicas do Estado,
refletindo, por parte do poder pblico, uma atitude poltica de interveno e
modelao do espao urbano, articuladamente s tcnicas e potenciais construtivos da
poca. Dessa maneira, alcanam-se resultados singulares: o edifcio isolado e de feitio
monumental exibe as quatro faces --tambm novidade para a poca -, dominando e
sobressaindo-se no em torno.
O edifcio recm-inaugurado est carregado de simbolismo latente: predomnio
da cincia sobre a f, organizao racional do espao fsico e social, porvir fulgurante e
vitria da ordem e do progresso sobre as foras caticas. Em sntese: fora, poder e
otimismo esto reunidos simbolicamente nessa obra de arquitetura.


Fato portentoso! As foras opostas s reformas sociais acumularam
obstculos; desencadeados em furiosa agitao, elementos contrrios prepararam o
campo em que a reao e a aliana das paixes ruins deviam ferir de morte a
instituio que exprime a frmula do progresso; entretanto ela defende-se alastrando o
terreno da luta de benefcios, de preciosos dons, de inestimveis e imperecveis
conquistas morais.
 corrente malfica,  hedionda leva de hordas iracundas, famlicas, invocadas
de antros malditos, lembrando as mais atrasadas e feias eras, pra derrocar o lar, 
singela pureza do labor popular,  vida em todas as manifestaes ela ope a
reparadora obra da paz, o conforto das aplicaes cientficas, das modernas
concepes que fazem prosperar os povos pelas garantias da sade, do
desenvolvimento fsico e aperfeioamento moral e intelectual e pela segurana do
direito.
No se trata somente da construo dum edifcio, adianta-se grandemente a
realizao de um vasto plano. (Campos, 1895, p. 6)
92#
93
A escala monumental, a elegncia severa e a sobriedade na decorao do
edifcio sugerem reciprocidade entre grandeza dimensional e grandeza moral: a
arquitetura transforma-se em pedagogia eloquente que ensina aos indivduos os
princpios da sociedade perfeita. Dessa maneira, os instituidores da Repblica
acrescentam imagens s idias.
Entretanto, esses sujeitos histricos --diferentes expresses da burguesia
paulista finissecular --que declaram sobranceiramente a sua independncia em relao
ao passado, optam por um estilo arquitetnico passado para expressar visualmente os
seus valores. Partilhando dos pressupostos da burguesia europia do sculo XIX (7)
que correlaciona estilo histrico e utilidade pblica e objetivando tornar a funo do
edifcio exteriormente evidente, adotam o estilo neoclssico (8) --no dizer da poca
"renascentista moderno" --para a construo do edifcio da Escola Normal de So
Paulo, que, at ento, funcionava em um velho sobrado colonial na rua da Boa Morte,
na Freguesia da S, e outrora, durante uma visita do imperador D. Pedro II a So
Paulo, fora por ele qualificado de "pardieiro".


Para ns meninos, porm, que deixamos a velha Escola, o novo palcio da
Praa nos parecia o palcio das fadas; um palcio encantado, onde as esperanas cada
dia maiores ofuscaram a saudade. (Mota, 1947, p. 97)


Ao construrem um edifcio para abrigar uma escola destinada  formao dos
novos e  produo e divulgao da alta cultura e a instruo das crianas, os
republicanos paulistas proclamam imaginariamente sua filiao  Renascena europia.
A escala monumental, o estilo histrico, o isolamento do edifcio ornamentado
por oito esttuas de olhar fixo e ptreo --alegorias das Artes e das Cincias --,
circundado por jardins sinuosos e gradis de ferro artisticamente trabalhados, e a
iluminao produzida por lmpadas de arco voltaco, todos esses aspectos conferem
aparncia europia ao conjunto arquitetnico, simbolizando para os homens da poca a
presena do mundo moderno e seus princpios fundamentais: civilizao, tcnica,
progresso, laicidade, igualdade e democracia.
Integrando, inicialmente, o Curso Normal com uma seo masculina e outra
feminina e destinado a aalunos com idade de 16 anos e a Escola-Modelo Preliminar
"Antonio Caetano de Campos", tambm com uma seo feminina e outra masculina e
destinado  alunoss de 7 a 11 anos, assim como  prtica de ensino, a Escola Normal
da Praa  a imagem condensada de um sistema de instruo pblica: modelo
experimental e sntese cientfica passvel de generalizao para o conjunto da sociedade
brasileira.
No entanto, para os instituidores da Repblica, essa clulla mater da instruo
pblica e da sociedade representa, sobretudo, um falanstrio, na acepo ampla do
termo: conjunto de estruturas arquitetnicas, administrativas, econmicas e morais,
sobre o qual se assentar a sociedade transparente envolvida na abundncia e trabalho
atraente, conduzida por um governo poltico, que se dissolve na "administrao das
coisas", substituindo-se a servido e os conflitos sociais pela harmonia e moralidade
pblica, mediante a instruo dos novos.
Alguns depoimentos registrados no livro de visitas da Escola Normal da Praa,
permitem avaliar o impacto causado na sensibilidade da poca.


A Escola Normal  a afirmao mais positiva do intuito democrtico
caracterstico do governo republicano.
93#
94
Em sua direo vibram as aspiraes bem orientadas do esprito moderno,
seguras garantias de sua estabilidade e progresso. -
S. Paulo, 23 de Setembro de 1894-.
Bernardino de Campos


Ebbi la fortuna di visitare la suola normale de S. Paulo, e la encontrati um
esemplo della pi alta perfeizone. -
Virglio Cestari


Tudo perfeito. -A futura Ptria aqui est -14-3-95
Dr. Luiz Pereira Barreto
(Prestes, 1896, p. 37)


Edifcio escolar e experincia dos novos
De ar palacial, o edifcio da Escola Normal da Praa apresenta o formato de um
"E" maisculo --um corpo central e dois laterais --uma planta relativamente simples.
Mede 86 metros de frente, 37 de fundo e 14 de altura, com trs pavimentos, sendo um
subterrneo. O edifcio contm 40 salas -ocupadas pelo Curso Normal, Escola-Modelo,
museu, gabinetes, biblioteca e administrao e inmeros vestbulos e galerias
abertas (9).
Os pavimentos so ocupados da seguinte maneira: superior --Curso Normal,
sala de professores, Museu de Histria Natural e Gabinete de Anatomia; trreo --
Escola-Modelo Preliminar "Antonio Caetano de Campos", administrao, Gabinete de
Fsica, Laboratrio de Qumica e Fsica; e subterrneo --oficinas de carpintaria,
modelagem e cmaras escuras para experincias de tica.


Acham-se alojados no corpo central a secretaria a biblioteca, os laboratrios
de fsica e qumica e aos exerccios de canto e declamao dos alunos de ambos os
sexos da escola modelo Caetano de Campos, anexa  Escola Normal.
A biblioteca, fundada em 1880, ocupa duas acanhadas salas com 14 estantes,
tendo em cima galerias com o mesmo nmero de estantes. Nela acham-se cerca de
7.000 volumes, quase todos de obras didticas, catolagados e zelosamente tratados,
um telescpio Foucault, um equatorial, uma esfera armilar, uma celestial e dois globos
terrestres.
No gabinete de fsica encontram-se todos os instrumentos necessrios ao
estudo dessa disciplina, tais como mquinas pneumticas, mquinas de compresso,
hemisfrio de Magburgo, balana hidrosttica, lentes e espelhos, pilhas eltricas de
diferentes autores, motores, locomvel, locomotivas, etc.
No gabinete de qumica acham-se todos os reativos destinados a diversas
combinaes e experincias.
No anfiteatro existe um tableau para experincias eltricas e iluminao,
tendo comunicao com um dnamo situado na parte inferior.
Dos dois lados do primeiro pavimento funcionam 14 salas de estudo, sendo 10
para o curso preliminar e 4 para o complementar. As salas tm capacidade para 45
alunos e esto montadas com o maior esmero e rigor pedaggico. Dispem elas de
bancos, carteiras, isolados, sistema americano Chandlers, mapas murais e quadros para
o ensino intuitivo de Deyrolles e Mm. Carpentier.
94#
95
No embasamento do edifcio acham-se instaladas as oficinas de modelagem e
carpintaria.
No corpo central do segundo pavimento existem o bem organizado salo de
honra, a sala dos professores e os gabinetes de cincias naturais.
Neste ltimo encontram-se pssaros, animais de diversas ordens, insetos, uma
escolhida coleo de minerais, plantas txteis e alimentares, conchas, etc.
No gabinete de anatomia acham-se diversas peas do corpo humano,
esqueletos de diversos animais, um manequim anatmico, um esqueleto humano
montado e vrios mapas para o estudo da anatomia. (Pinto, 1970, p. 116-7)


Anfiteatro com cobertura sustentada por estrutura metlica, ginsio para
ginstica pedaggica e plataforma de observao meteorolgica completam as
instalaes desse estabelecimento de ensino pblico.
O aspecto produz significado: a entrada principal composta por trs portas
enormes de ferro e vidro d acesso a um vestbulo e escadarias de mrmore branco,
formando um ambiente imponente, frio e luminoso. Esse eixo divide o edifcio em alas
simtricas:  direita, seo feminina;  esquerda, seo masculina, explicitando-se o
gosto pela classificao biolgica, tpico do sculo XIX.
Nesse vestbulo --assim como se verificar frequentemente nos vestbulos dos
grupos escolares --, repousa um busto de mulher, cujos cabelos esto cobertos por um
barrete frgio e a cabea, orlada por ramos de caf, em substituio  clssica coroa de
louros. De bvia inspirao francesa, essa alegoria feminina, produzida pelo imaginrio
republicano, representa aos olhos de todos a Repblica brasileira e seus principais
atributos: amor e abnegao, ou simplesmente altrusmo.
Por sua vez, o programa arquitetnico extenso do edifcio configura uma rede
uniforme e prtica de dependncias destinadas a facilitar a vida comunitria e a
centralizao burocrtica. Os ambientes envidraados ou abertos, o p-direito alto, as
salas de aulas com portas para as galerias abertas e a posio da administrao escolar
criam um ambiente transparente e permitem controlar o fluxo e o comportamento de
professores e alunos. Dessa maneira, a cena escolar est inteiramente exposta ao olhar
do diretor do instituto, transfigurado em presena universal e permanente entre
professores, alunos e funcionrios, imaginariamente envolvidos em uma comunidade
presidida pela sociabilidade e comunho cvica.
Fachada grandiosa, interior imponente e transparente --caractersticas da
arquitetura da poca republicana --despertam sentimento de devoo. A Escola
Normal de So Paulo transforma-se em edifcio de culto a um poder que exprime fora
e vitalidade: a Repblica.
No ambiente finissecular, o programa e o estilo arquitetnico da Escola Normal
configuram o padro a ser utilizado na construo de grupos escolares e escolas
normais: fachada grandiosa, vestbulo artstico, escadarias de mrmore branco e
madeira nobre, alas perpendiculares e simtricas ao corpo central, proporcionando
completa separao entre a seo feminina e masculina, janelas altas e envidraadas,
portas largas, salas de aulas retangulares, galerias abertas, ptio interno, fazendo com
que a sua funo seja externamente evidente e integrada  vida urbana. Em outras
palavras, uma escola deve ser reconhecida como uma escola, produzindo a auto-imagem
de uma poca e despertando sentimento de afeio e identificao com o novo
regime.
Adentrar as altas portas e os largos corredores desse edifcio escolar severo e
imponente significa uma experincia nica na vida de uma criana da poca.
95#
96
O menino vestia blusa branca, de mangas estufadas, grande colarinho
engomado, de pontas redondas, fechado por enorme lao de gravata cor-de-rosa;
calas brancas descendo at abaixo dos joelhos, onde se ajustavam por elsticos, meias
pretas, compridas e botinas de amarrar. Palheta na cabea, latinha verde, arredondada,
a tiracolo, onde havia estampado um menino a brincar com um co. Dentro, um
sanduche de bife, embrulhado em papel pardo, outro de marmelada, tambm
embrulhado em papel pardo, guardanapo e copo de metal feito de vrias sees
ajustveis.
Seguiu o pequeno grupo silencioso e srio [...] e entrou na Praa da
Repblica. O menino tambm vinha srio, sem fazer perguntas, num saltitar com um p
no passeio e o outro na sarjeta.
Na praa da Repblica entraram no edifcio lateral da seo masculina, que
dava para o lado da rua Arajo, onde comea a Rua Marqus de It. Passado o
saguo, dobraram o corredor  direita e o pai bateu  segunda porta. Abriu-a uma
moa loura, e entraram na sala de aulas onde haveria uns quarenta meninos, todos a
olhar o recm-chegado. O casal trocou palavras com a moa recomendando que o
menino no podia sentar perto da janela nem tomar vento encanado, porque era
delicado de sade. Beijaram-no, recomendando-lhe que se portasse bem, e que seu o
pai viria busc-lo s trs horas da tarde. Despediram-se e a porta fechou-se.
Jorge, sente-se naquela cadeira, disse a moa, D. Orminda, Jorge sentou-se e
olhou para os outros meninos. Olhou a professora. Ouviu o rudo de um assoado de
nariz do lado de fora da porta, depois passos que se afastavam. Olhou teto, as paredes,
as janelas, o quadro-negro. Sentiu-se abandonado e deslocado e desatou a chorar. A
professora aproximou-se, alisou-lhe os cabelos, perguntou-lhe se j conhecia as letras e
os nmeros, escreveu algumas palavras no quadro-negro e mandou que as lesse. O
conforto veio voltando. J no estava desamparado. (Americano, 1957, p. 128)


 epoca, esse estabelecimento de ensino abriga um contingente de
aproximadamente "600 almas" --260 alunos do Curso Normal e 370 alunos da Escola-Modelo
Preliminar.
Em 1895, as alas laterais do edifcio so ampliadas, elevando-se para 79 o
nmero de salas de aulas. Aps a ampliao, a Escola Normal passa a sediar a Escola-Modelo
Complementar, destinada a alunos com idade entre 11 e 14 anos. Logo depois,
essa Escola-Modelo tem sua finalidade propedutica substituda por outra de natureza
profissionalizante, passando a formar em tenra idade professores primrios
denominados "complementaristas".
Sob a proteo e a inspirao da Repblica --alegorizada na figura feminina --,
essas almas em formao atravs do estudo e da introspeco so envolvidas pelos
smbolos nacionais --a bandeira e o hino nacional --, pelo culto dos heris emergentes
--Tiradentes e Silva Jardim --e pela voga dos livros de leitura de Felisberto de
Carvalho e do livro Corao: dirio de um aluno, de Edmundo de Amicis.
Periodicamente, devidamente fardados, munidos de pequenas espingardas de madeira e
estandarte da escola, os alunos das Escolas-Modelos Preliminar e Complementar,
assim como os alunos de outras Escolas-Modelos e dos grupos escolares recm-criados
situados em diferentes pontos da cidade, transpem as portas do
estabelecimento, marchando e cantando pelas ruas de So Paulo.
Novidade republicana, os batalhes escolares perduraro at as primeiras
dcadas do sculo XX, atravessando o fastgio da belle poque paulista.
96#
97
Para tornar os exerccios militares mais atraentes foi organizado um batalho
infantil que possui cem carabinas com sabres, cintures, quatro tambores, quatro
cornetas e uma bandeira nacional. (Rodrigues, 1908, p. 35)


Nesse momento, graas  concentrao da populao urbana,  configurao da
arquitetura escolar e  consolidao do modelo didtico-pedaggico empregado nas
Escolas-Modelos, difundem-se os grupos escolares: na virada do sculo o Estado
constri aproximadamente 90 unidades.
Saudados como a "criao mais feliz da Repblica" por um contemporneo da
poca, e um dos elmentos do padro de execelncia do ensino paulista durante a
Primeira Repblica, os grupos escolares, com ensino graduado e um professor para
cada srie escolar, so fenmenos urbanos por excelncia e integram a experincia de
vida de vrias geraes, as quais realizaam parte de sua infncia nesses
estabelecimentos de ensino.


Lembro bem do primeiro dia de aula do Grupo Escolar do Arouche. Um meu
irmo foi se matricular e me causou muita impresso a entrada do Grupo, antiga
moradia da famlia Abranches: a entrada do salo do sobrado, com sacada, d para
uma escadaria de madeira que se dividia em dois ramos com grades de madeira de lei.
Era uma beleza subir a escada. Fui para a classe de dona Marcolina Marcondes Sabia,
professora que me alfabetizou. No era bonita, era baixa, gorda, me lembro sempre
dela rindo. Usava muito giz de cor. A criana que lesse melhor a lio da lousa,
ganhava um carto. Ganhei um com uma camponesa sentada em sua perna, com
muita purpurina: ele me deu esse carto com um beijo.
A cartilha era Meu Livro de Pinto Silva, lembro das figuras, a menina sentada
no cho com um livro aberto no colo: "Olha a menina. Olha o livro". O mtodo j era
o analtico. Foi indo at que no Ph: uma mesa com uma toalha de croch e uma caixa
de fsforos. Dona Marcolina me deu a cartilha e eu li: "Pelipe tem uma caixa de
psporos". At hoje sinto dona Marcolina me abraando e rindo. Era: "Phelipe tem
uma caixa de phosphoros". (Brites in Bosi: 1979, 246)


O Jardim da Infncia
Em 1897, durante a gesto de Bernardino de Campos com Alfredo Pujol e
Gabriel Prestes  frente, respectivamente, da Secretaria dos Negcios do Interior e da
Diretoria da Escola Normal de So Paulo, completam-se as instalaes desse
estabelecimento, inaugurando-se o edifcio do Jardim da Infncia, projetado por
Ramos de Azevedo.
O edifcio do kindergarten --denominao de poca --situa-se nos fundos da
Escola Normal da Praa da Repblica em uma rea extensa, coberta de vegetao
umbrosa --restos de uma antiga chcara. Formado por uma estrutura metlica
imponente, que lhe confere magnfico efeito arquitetnico, o edifcio sobressai-se na
paisagem circundante.
Seu interior, de 940 metros quadrados,  amplamente iluminado e contm
quatro salas de aula e um grande salo central de 15m por 16m, com p-direito duplo,
coberto por uma cpula octagonal: admirvel estrutura metlica completada por vidro
fosco encaixilhado em ferro artsticamente trabalhado. Na face externa da cpula,
encontram-se quatro terraos triangulares com vistas para diferentes pontos da cidade;
a face interna da cpula  circundada por uma uma galeria destinada s pessoas que
97#
98
assistem s solenidades escolares realizadas no salo central. Logo abaixo da galeria do
salo central, esto os retratos a leo de Froebel, Pestalozzi, Rousseau e Mme.
Carpentier. As dependncias do edifcio so circundadas por uma varanda que
possibilita a comunicao com todas as salas e dependncias, e so completadas por
quatro compartimentos destinados a banheiros, sala de visitas, gabinetes de trabalho e
pequenos pavilhes de recreio cobertos por estruturas de ferro octagnoais assentadas
sobre colunas e localizados nos jardins verdejantes, os quais contm espaos
macadamizados reservados para jogos infantis.
Provido de iluminao zenital, o pavilho do kindergarten assemelha-se s
estruturas de metal e vidro utilizadas nas exposies universais do sculo XIX. A
combinao desses dois materiais --ferro e vidro --produz uma paisagem translcida,
resplandescente e algo celestial, habitada por pequenas hordas angelicais,  poca
aproximadamente 100 meninos e 100 meninas.


Desde as primeiras horas do dia, enquanto o sol paulistano preguiosamente afastava
as cortina de neblina para espiar o mundo c fora, j grrulos bandos de avesitas --
todas uniformes nos seus aventaizinhos pardos e cabecinhas azuis --enchiam de alarido
e animao as alias que circundavam o vasto parque. Oh as criancinhas do JARDIM!
Que bonecas encantadoras! Rosadas pelo frio da manh, olhinhos cintilantes e vivos,
boquinha sorridente, vinham a correr em demanda de seu venturoso lar!
[...] Chegavam felizes "para brincar", como afirmavam: sem suspeitar que,
brincando, recebiam os primeiros ensinamentos fundamentais, as noes bsicas com
alicerariam conhecimentos futuros...
Dispersas ou agrupadas entre os canteiros, semelhavam exuberantes flores
tropicais debruadas pelos caminhos. Ao observ-las atentamente --irriquietas,
esvoaantes sobre os gramados, corrigia-se o erro de viso: so borboletas ou
passarinhos... No ar estalavam risadinhas sonoras de cristal; silvavam gritinhos agudos
e assustados das que se deixavam aprisionar pelo "pegador". (Silva, [1946], p. 62)


nico em seu gnero no Brasil, o Jardim da Infncia tem por finalidade a
"educao dos sentidos" de crianas com idade entre 4 e 7 anos.
Teoricamente fundamentado no pensamento de Friedrich Wilhem August
Froebel --"despertar o dvino que existe no interior da alma humana" --o Jardim da
Infncia  organizado segundo as diretrizes desse pedagogo alemo: jogos, cantos,
danas, marchas, narraes de contos e pinturas com a finalidade de propiciar a
educao dos sentidos das crianas. No dia-a-dia escolar, as jovens e belas jardineiras --
professoras do Jardim da Infncia --conduzem a sua atividade didtica, segundo as
prescries contindas na obra Paradise of Childhood, de Eduard Wieb -ou Guia das
Jardineiras na traduo do Diretor da Escola Normal da Praa, Gabriel Prestes -, e nas
obras literrias da Subinspetora do Jardim da Infncia, a poetisa Zalina Ralim, a saber:
Corao e Livro das Crianas e com material didtico "froebeliano" importado.


Jamais experimentei em dias da minha vida uma satisfao to grande como
quando penetrei nesse recinto de anjos.
Ver as preceptoras ensinarem e ver aqueles pirralhos, com um ateno fora do
comum, no meio do mais religioso silncio, prestarem a maior ateno s explicaes
que lhes eram dadas, constituiu para mim uma supresa e um espetculo
verdadeiramente edificante. Era belo de ver-se as preceptoras interrogarem as crianas
e a luta que estabelecia-se procurando todas responder ao mesmo tempo. Se alguma
98#
99
ficava retardatria nas respostas ou no respondia as perguntas que lhe eram feitas, a
professora admoestava-a com carinho e a criana, envergonhada, deixava correr pelas
anglicas faces dois fios de lgrimas. (Pinto, 1970, p. 118)


Nesse palcio mgico de cristal --ou, conforme as evocaes de um ex-aluno,
"palcio de maravilhas" ou "paraso das criancinhas" --, cria-se um mundo de sonho e
fantasia: crianas rosadas animam a natureza, exercitando seus dons e jardineiras
jovens agitam a vara de condo, exercendo forte sugesto sobre a imaginao das
crianas. E a majestosa cpula de metal e vidro do kindergarten, circundada por restos
de vegetao tropical, assemelha-se a uma estufa de plantas onde viscejam almas em
boto e a um viveiro de pssaros, onde ecoam intermitentemente cantigas infantis.


Vamos ver, amiguinhas
De ns qual h de ser
Que o nome das florinhas
Vai, pelo odor dizer


Vem tu, florinha bela,
Azul da cor do cu
Irs s mo daquela
Que diga o nome teu.
(Eschola Publica, 1896, p. 226)


A experincia vivida pelas crianas nesse espao arquitetnico encantatrio ir
se incorporar de forma indelvel s suas lembranas de adultos.


[...] o Jardim, de altas paredes de cristal, parecia uma descomunal lanterna em
que o sol acendia rutilaes multiespelhando-se em seus vitrais esmerilhados e
multicolores. E junto e dentro dela agitava-se o bando inquieto de seus pequeninos
alunos, como borboletas e mariposas tontas de luz. (Vieira, [1946], p. 64)


A Escola Normal da Praa era muito mais bonita que hoje [...] Seu terreno era
cheio de flores e rvores de magnlia. Na rea que corresponde hoje  Avenida So
Lus ficava o ginsio de esportes e o jardim da infncia; jia de arquitetura: era uma
construo sestavada ou oitavada onde as crianas subiam por rampas com gradis de
ferro cheios de trepadeiras. Debaixo das magnlias o cho era de areia onde as
crianas brincavam. Elas ficavam uma belezinha com seus aventais de brim bege e
chapu de palha redondo, marinho e bege com uma fita escrita: "Jardim da Infncia".
Cantavam:
Eu sou a magnlia copada
de flores de alvo cetim
que acolhe sob a ramada
as crianas do Jardim. (Bosi, 1979, p. 249)


O Jardim da Infncia ou Kindergarten --metfora que assemelha o crescimento
da criana ao das plantas -- uma das ltimas projees romnticas a imiscuir-se no
ambiente finissecular paulista, promovendo, sistematicamente, a construo de uma
imagem de criana.
99#
100
Com a inaugurao do Jardim da Infncia, finaliza-se a concretizao do plano
inicial da Escola Normal de So Paulo: a construo de uma rede de escolas graduadas
--todas de carter demonstrativo --destinada a envolver os novos, desde a primeira
infncia at o incio da idade adulta.


Consideraes finais
Coerentemente com sua viso de mundo, os republicanos paulistas configuram
uma arquitetura escolar que, reunindo o grandioso e o funcional, promovem a
construo de uma imagem de criana. Diferentemente da representao produzida
pela psicologia da infncia da poca --presente, sobretudo, nas teorizaes sobre
mtodos de ensino, nos programas escolares e, de forma difusa, na literatura escolar --,
que procura caracterizar a "marcha do esprito" da criana, associando crescimento
biolgico e aptides de cada ciclo de idade, a imagem da criana segundo os cnones
do discurso republicano, elaborado em estilo alto e idealizador, assume, sobretudo,
natureza sociolgica e poltica.
Tomados pela paixo de uma sociedade reconduzida ao seu comeo primordial,
esses sujeitos histricos idealizam a instruo como condio prvia para o bom
funcionamento das instituies republicanas, fundadoras de um corpo poltico
duradouro e de um pacto social estvel.
Nesse momento histrico, representado como Ano 1 da Nova Era, o discurso
republicano, pleno de messianismo poltico, promove uma sbita valorizao da
criana, representando-a como herdeira da Repblica, esta alegorizada na figura da
mulher amorosa e abnegada. Para esse ponto de vista, cabe ao Estado exercer o papel
de preceptor dos novos, subtraindo-os do mbito do privado, famliar e afetivo e
conduzindo-os para o mbito do pblico, social e poltico. Em outras palavras, esse
discurso convida os novos a herdarem o novo regime e a protagonizarem, no
transcorrer de suas vidas, uma histria fabular, cujo enredo deve ser a liberdade e o
progresso.
100#
101
NOTAS

(1) A respeito da evoluo urbana e arquitetnica da cidade de So Paulo no sculo
XIX, consultar: LEMOS, Carlos A. C. Alvenaria Burguesa. So Paulo: Nobel, 1989;
TOLEDO, Benedito Lima. So Paulo: trs cidades em um sculo. So Paulo: Livraria
Duas Cidades, 1983. Consultar tambm: BRUNO, Ernani Silva. Histria e tradies da
cidade de So Paulo. Rio de Janeiro: Livraria Editora Jos Olympio, 1954, v. 2.


(2) Para uma viso panormica dos marcos arquitetnicos e do traado urbano da
cidade de So Paulo, no final do sculo XIX, ver a bela iconografia constante de
KOSSOY, Boris. lbum de Photographias do Estado de So Paulo 1892: estudo
crtico. So Paulo: Kosmos, 1984 e ___. So Paulo 1900. So Paulo: Kosmos, 1980.


(3) Para a anlise do pensamento republicano e da Proclamao da Repblica
brasileiros, inspirei-me nas seguintes obras ARENDT, Hannah. Da revoluo. So
Paulo: Editora tica, 1988; CARVALHO, Jos Murilo de. Os bestializados: o Rio de
Janeiro e a Repblica que no foi. So Paulo: Companhia das Letras, 1987 e ___. A
formao das Almas: o imaginrio da Repblica no Brasil. So Paulo: Companhia das
Letras, 1990.


(4) A respeito das realizaes dos republicanos paulistas no mbito das polticas
pblicas consultar, LINS, Ivan. Histria do positivismo no Brasil. So Paulo:
Companhia Editora Nacional, 1967; e RIBEIRO, Maria Alice Rosa. Histria sem fim:
inventrio da sade pblica. So Paulo: Editora da Unesp, 1983.


(5) A respeito da relao entre edifcios, monumentos e praas e vida pblica ver:
SITTE, Camilo. A construo das cidades segundo seus princpios artsticos. So
Paulo: Editora tica. 1993.


(6) Sobre a trajetria da Escola Normal na dcada de 1890, ver as seguintes obras que
disputam entre si a memria histrica sobre o perodo, resultando em interpetaes
divergentes: RODRIGUES, Joo Loureno. Um retrospecto: alguns subsdios para a
histria pragmtica do ensino pblico em So Paulo. So Paulo: Instituto D. Anna
Rosa, 1930; e OLIVEIRA, Jos Feliciano de. O ensino pblico em So Paulo: algumas
reminiscncias. So Paulo: Tipographia Siqueira, 1932.


(7) Sobre as relaes entre arquitetura monumental, urbanismo, cosmopolitismo e
modernidade no ambiente finissecular europeu, ver as estimulantes reflexes de
SCHORSKE, Carl E. Viena fin-de-siecle: poltica e cultura; e WEBER, Eugene.
Frana fin-de-sicle. So Paulo: Companhia das Letras, 1988; sobre as cidades no
sculo XIX e suas dimenses contrastante ver MUNFORD, Lewis. A cidade na
histria. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1965, 2v.


(8) Para uma anlise pormenorizada do estilo neoclassico, suas tcnicas construtivas e
sua difuso em So Paulo, consultar: SALMONI, Anita Salmoni, DEBENEDETTI,
Ema. Arquitetura italiana em So Paulo. So Paulo: Editora Perspectiva, 1983.


(9) As reflexes organizadas neste tpico a respeito do programa e estilo arquitetnico
da Escola Normal seguem de perto as noes de "arquitetura falante" e panotiptismo,
constantes em STAROBINSKY, Jean. 1789: os emblemas da razo. So Paulo:
101#
102
Companhia das Letras, 1988; e FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrpolis:
Vozes, 1983.


(10) Para uma anlise das intervenes no edifcio da Escola Normal posteriores a sua
inaugurao, ver: PASSAGLIA, Luis Alberto do Prado. Subsdios para a interpretao
do Instituto de Educao Caetano de Campos. Revista do Arquivo Municipal de So
Paulo, n. 188, jan./ dez., 1976; sobre o significado da arquitetura escolar paulista e sua
evoluo entre 1890-1930, consultar tambm: ARTIGAS, Joo Batista Vilanova. Os
Caminhos da Arquitetura. So Paulo: Pini/ Fundao Vilanova Artigas, 1986; e
PEIRO, Maria Elizabeth, NEVES, Helia Maria Vendramini, MELLO, Mirela Geiger.
Arquitetura escolar paulista: 1890-1920. So Paulo: FDE/ Diretoria de Obras e
Servicos. 1991.
102#
103
REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

AMERICANO, Jorge. So Paulo naquele tempo: (1895-1915). So Paulo: Edio
Saraiva, 1957.


BOSI, Ecla. Lembrana de velhos. So Paulo: T. A. Queiroz, 1979.
CAETANO DE CAMPOS, Antonio. Relatrio Apresentado ao Dr. Jorge Tibiri pelo
Diretor da Escola Normal Antonio Caetano de Campos, em 1o de Maro de 1891, in:
Anurio do Ensino do Estado de So Paulo: 1907-1908. Publicao organizada pela
Inspetoria Geral do Ensino por ordem do Governo do Estado. So Paulo: Tipogrphia
Siqueira & Com., 1908.


CAMPOS, Bernardino de. Sesso Inaugural do Edifcio da Escola Normal de So
Paulo. So Paulo: Typographia Paulista a vapor, de Horrio Belfort Sabino, 1895.


Eschola Publica. So Paulo: Typographia Industrial de So Paulo, 1896.
FREYRE, Gilberto. Ordem e Progresso. Rio de Janeiro: Jos Olympio Editora, v. 1,
p. 193.


MOTTA, Cssio. Cesrio Motta Jnior e seu tempo. So Paulo: Indstria Grfica
Bentivegana, 1947.


MOTTA JNIOR, Cesrio. Ata da Sesso de Instalao da Escola Politcnica de So
Paulo, 15 de fevereiro, 1894.


PINTO, Alfredo Moreira. A cidade de So Paulo em 1900. So Paulo: Governo do
Estado de So Paulo, 1970. (edio fac-similar)


PRESTES, Gabriel. Relatrio Apresentado ao Sr. Dr. Alfredo Pujol M. D. Secretrio
dos Negcios do Interior pelo Diretor Gabriel Prestes em 1896, in: Relatrio
Apresentado ao Exmo. Sr. Dr. Presidente do Estado de So Paulo, em 30 de Maro de
1896 pelo Secretrio de Estado dos Negcios do Interior e Instruo Pblica Alfredo
Pujol. So Paulo: Tipogrphia do "Dirio Oficial, 1896.


________. Gabriel. Sesso Inaugural do Edifcio da Escola Normal de So Paulo. So
Paulo: Typographia Paulista a vapor, de Horcio Belfort Sabino, 1895.


P. S. Hino infantil. Revista de Ensino, jun. 1904.
REIS, Virgilio Csar dos. Relatrio Apresentado ao Ilustrado Conselho Superior de
Instruo Pblica, pelo Inspetor do 2o Distrito Literrio Vrgilio Csar dos Reis. In:
Relatrio da Diretoria Geral da Instruo Pblica ao Sr. Dr. Presidente do Estado de
So Paulo pelo Dr. Cesrio Motta Jnior, Secretrio d'Estado dos Negcios do
Interior em 31 de Maro de 1895. So Paulo: Typographia do "Dirio Oficial".
103#
104
RODRIGUES, Joo Loureno. Anurio do Ensino do Estado de So Paulo: 1907-
1908. Publicao organizada pela Inspetoria Geral do Ensino por ordem do Governo
do Estado. So Paulo: Tiprographia Augusto Siqueira & Com.; 1908.


SILVA, Irene Branco. O jardim do nosso tempo. In: ROCCO, Salvador e outros
(orgs.) Centenrio do Ensino Normal de So Paulo: 1846-1946. So Paulo: s. e.
[1946].


Vera Cruz. Hino. Revista de Ensino, n. 3, agosto, 1905.
VIEIRA, Paim. Evocaes. In: ROCCO, Salvador e outros (orgs.) Centenrio do
Ensino Normal de So Paulo: 1846-1946. So Paulo, s. e., [1946].
104#
105
LEGENDAS E CRDITOS
FIGURA 1
Escola Normal da Praa em 1894
Departamento do Patrimonio Histrico -DPH


FIGURA 2
Escola Normal da Praa na virada do sculo
Departamento do Patrimnio Histrico -DPH


FIGURA 3
Planta baixa do pavimento trreo da Escola Normal da Praa -1894
Arquivo do Estado


FIGURA 4
Desenho do gradil externo projetado por Ramos de Azevedo
Arquivo do Estado


FIGURA 5
Capa do Primeiro Livro de Leitura de Felisberto de Carvalho


FIGURA 6
Capa de caderno de um aluno da Escola-Modelo "Caetano de Campos"
Arquivo do Estado


FIGURA 7
Anncio publicitrio
Revista do Ensino


FIGURA 8
Alunos em uma aula na Escola-Modelo
Arquivo do Estado


FIGURA 9
Alunas em uma aula na Escola-Modelo
Arquivo do Estado


FIGURA 10
Alunos no ptio externo da Escola Normal da Praa
Arquivo do Estado


FIGURA 11
Desenho da fachada do edifcio do Jardim da Infncia e fundos do edifcio principal
Revista do Ensino


FIGURA 12
Planta baixa do edifcio do Jardim da Infncia
Revista do Ensino
105#
106
FIGURA 13
Vista do Jardim da Infncia
Arquivo do Estado


FIGURA 14
Cpula do Jardim da Infncia
Departamento do Patrimnio Histrico -DPH


FIGURA 15
Vista interna do pavilho central do Jardim da Infncia
Departamento do Patrimnio Histrico -DPH


FIGURA 16
Alunos do Jardim da Infncia
Arquivo do Estado
106#
107
107#
